Um dos aspetos indispensáveis para a compreensão da linguagem do teatro de
marionetas é a conceção de movimento.
É espantoso quando o movimento da marioneta é tão convincente que logo
relacionamos com o movimento do ser humano. Essa é uma etapa importante a ser
conquistada no trabalho com a marioneta, para em seguida criar o movimento
próprio do personagem, com ritmos, respirações e intenções próprias.
O maior desafio do marionetista é fazer com que a marioneta se possa
expressar, produzindo a impressão de vida num corpo que se encontra fora do
nosso próprio corpo, e isso exige íntima relação do ator/marionetista com o objeto.
Para que isso aconteça é também necessário dominar as técnicas de
manipulação, garantindo que facilmente o manipulador se confunde com o objeto
manipulado, os sentimentos de um são imediatamente transmitidos ao objeto, que
por sua vez são interpretados pelo público.
Para adquirir a técnica é necessário dedicação, repetição de movimentos,
domínio do foco, da neutralidade, controle sobre a respiração, sobre a força da
presença da marioneta, o seu peso e eixo, dominar a técnica da triangulação, o
ritmo, os silêncios, a qualidade da voz do ator/marionetista, princípios que só
serão obtidos no trabalho árduo sobre a técnica de manipulação.
A marioneta inerte é um objeto, e o que o transforma em elemento teatral é
a ação dramática, e quando o ator/marionetista manipula a marioneta, é também o
seu corpo que atua em cena.
A busca por um trabalho que reúna o desenvolvimento destas habilidades de
neutralidade e contracena, exige do marionetista uma pesquisa no campo do
teatro e da dança, procurando ferramentas técnicas que o auxiliem no
desenvolvimento corporal.
O trabalho corporal do ator/marionetista não é assim limitado à apropriação
de uma técnica por meio da repetição de exercícios, pois cada movimento em
palco tem um significado e o ator/marionetista que trabalha com esse modelo,
concentra-se não apenas nos movimentos da marioneta, mas também nos movimentos
do seu próprio corpo. Os movimentos realizados pela marioneta são pensados e
estudados para que transmitam o significado escolhido, bem como os movimentos
do marionetista. Neste trabalho de movimento e cumplicidade a marioneta e o
marionetista trabalhem em consonância com a cena.
Nesta fase é necessário existir uma partitura gestual e de ação.
Se a
marioneta por si só não se movimenta, toda a construção de movimentação tanto
do marionetista como da marioneta deve ser estruturada.
Se o ator/marionetista no seu trabalho está aberto às diversas
possibilidades, técnicas e de linguagens, disposto a fazer descobertas, e
predisposto a se surpreender com a marioneta, o seu trabalho de certeza que
ganhará dimensão e alma, indispensável para a criação de um espetáculo de
teatro de marionetas. A disponibilidade para descobrir e jogar permite ao
marionetista estar atento e ampliar a sua técnica e o seu domínio sobre
qualquer objeto/marioneta, olhando-o mais intimamente, percebendo a
possibilidade do vir a ser contido em cada marioneta.
Na linguagem do teatro de marionetas, para além de uma técnica de
construção e manipulação aprimoradas, é fundamental que o objeto construído
tenha o que transmitir. A busca de técnicas de manipulação de grande rigor, a
invenção de mecanismos sofisticados para conseguir movimentos perfeitos, a
modelação e pintura de rostos para que as marionetas pareçam humanos e possam
encantar o público são importantes, no entanto, o trabalho do artista vai muito
para além da técnica, é fundamental que existam aspirações artísticas, é
essencial que quando a marioneta sobe ao palco tenha o que dizer, que pense que
sinta e que a sua presença não seja meramente entretenimento.
Texto retirado do site da companhia: Teatro e Marionetas de Mandrágora 17.04.2013 Expressão Dramática da Marioneta
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