Construí este blog para arquivar todo o meu trabalho artístico feito ao longo da minha vida profissional

Servirá também para relatar ideias e contextos de trabalho.

BLOGUE EM CONSTRUÇÃO

segunda-feira

PROJETO REVISTA



Um dos aspetos indispensáveis para a compreensão da linguagem do teatro de marionetas é a conceção de movimento.
É espantoso quando o movimento da marioneta é tão convincente que logo relacionamos com o movimento do ser humano. Essa é uma etapa importante a ser conquistada no trabalho com a marioneta, para em seguida criar o movimento próprio do personagem, com ritmos, respirações e intenções próprias.

É fundamental compreender as especificidades que caracterizam a linguagem da marioneta, pois não se trata apenas da reprodução realista das ações humanas, mas sim de transgredir essas referências, poetizando as suas ações, procurar superar a imitação e encontrar o ser de cada marioneta.

O maior desafio do marionetista é fazer com que a marioneta se possa expressar, produzindo a impressão de vida num corpo que se encontra fora do nosso próprio corpo, e isso exige íntima relação do ator/marionetista com o objeto.

Para que isso aconteça é também necessário dominar as técnicas de manipulação, garantindo que facilmente o manipulador se confunde com o objeto manipulado, os sentimentos de um são imediatamente transmitidos ao objeto, que por sua vez são interpretados pelo público.

Para adquirir a técnica é necessário dedicação, repetição de movimentos, domínio do foco, da neutralidade, controle sobre a respiração, sobre a força da presença da marioneta, o seu peso e eixo, dominar a técnica da triangulação, o ritmo, os silêncios, a qualidade da voz do ator/marionetista, princípios que só serão obtidos no trabalho árduo sobre a técnica de manipulação.

A marioneta inerte é um objeto, e o que o transforma em elemento teatral é a ação dramática, e quando o ator/marionetista manipula a marioneta, é também o seu corpo que atua em cena.
A busca por um trabalho que reúna o desenvolvimento destas habilidades de neutralidade e contracena, exige do marionetista uma pesquisa no campo do teatro e da dança, procurando ferramentas técnicas que o auxiliem no desenvolvimento corporal.

O trabalho corporal do ator/marionetista não é assim limitado à apropriação de uma técnica por meio da repetição de exercícios, pois cada movimento em palco tem um significado e o ator/marionetista que trabalha com esse modelo, concentra-se não apenas nos movimentos da marioneta, mas também nos movimentos do seu próprio corpo. Os movimentos realizados pela marioneta são pensados e estudados para que transmitam o significado escolhido, bem como os movimentos do marionetista. Neste trabalho de movimento e cumplicidade a marioneta e o marionetista trabalhem em consonância com a cena.
Nesta fase é necessário existir uma partitura gestual e de ação.

Se a marioneta por si só não se movimenta, toda a construção de movimentação tanto do marionetista como da marioneta deve ser estruturada.
Se o ator/marionetista no seu trabalho está aberto às diversas possibilidades, técnicas e de linguagens, disposto a fazer descobertas, e predisposto a se surpreender com a marioneta, o seu trabalho de certeza que ganhará dimensão e alma, indispensável para a criação de um espetáculo de teatro de marionetas. A disponibilidade para descobrir e jogar permite ao marionetista estar atento e ampliar a sua técnica e o seu domínio sobre qualquer objeto/marioneta, olhando-o mais intimamente, percebendo a possibilidade do vir a ser contido em cada marioneta.

Na linguagem do teatro de marionetas, para além de uma técnica de construção e manipulação aprimoradas, é fundamental que o objeto construído tenha o que transmitir. A busca de técnicas de manipulação de grande rigor, a invenção de mecanismos sofisticados para conseguir movimentos perfeitos, a modelação e pintura de rostos para que as marionetas pareçam humanos e possam encantar o público são importantes, no entanto, o trabalho do artista vai muito para além da técnica, é fundamental que existam aspirações artísticas, é essencial que quando a marioneta sobe ao palco tenha o que dizer, que pense que sinta e que a sua presença não seja meramente entretenimento. 
 Clara Ribeiro


Sem comentários:

Enviar um comentário